Por sorte, o livro indicado (leia obrigado) a ser lidos para a prova de literatura era “O Vendedor de Judas” da escritora cearense Técia Montenegro. No começo, não estava gostando muito da ideia, já que tinha que estudar as chatas matérias exatas que em nada me agradam. Mesmo assim, peguei o livro e li o primeiro conto até que não consegui mais parar.
O Vendedor de Judas foi lançado em 1998 pela editora UFC, porém a edição que estou lendo foi confeccionada em 2007 pelas Edições Demócrito Rocha. Tércia escreveu esse livro com apenas 22 anos e já foi muito bem premiada com a obra. Seus personagens são simples – dignos de pessoas que vivem em cidades do interior, descritos tão bem pela autora, mesmo sem ter nunca morado em uma. – e complexos – como é natural da condição humana. Os contos sempre envolvem assuntos como fé ingênua, obsessão amorosa, dor e solidão. Há quem compare seus textos com os de Moreira Campos por conter sem suas linhas sempre algo trágico.

Dentre os melhores contos do livro um se destada. “Vitorina”, história de uma aleijada que se apaixonou por um padre. Eu sei que nada se compara em pegar o livro e ler o conto, mas mesmo assim coloquei o texto para vocês:
Vitorina
Tércia Montenegro
Todas as manhãs, ela desce a curta ladeira onde se amontoam mais de vinte barracos. Os vizinhos mais próximos saem às portas e janelas para vê-la passar. É pouco o caminho a ser vencido, mas Vitorina gasta nisso dois quartos de hora, parando em cada sombra, pernas imóveis cruzadas junto à cintura.
– Essa aleijada! – e os homens riem, coçando as barrigas nuas. Sentem o vento fraco nos cabelos. As mulheres, carregando cestos de roupa molhada, também esperam para comentar:
– Mas vá, deixa a alma do homem em paz!
- Nem morto ele descansa.
Vitorina não para. Todos os dias traz o vestido sujo de barro, as mãos grossas de andas na areia. Calça uns sapatinhos de pano, embora os pés nunca lhe tenham tocado o chão. Vai à igreja, terço enrolado no pescoço, reza pouco, uns murmúrios só, e logo se arrasta por detrás da sacristia. Penetra na cripta escura, antigo cemitério dos padres. Pensa que ninguém sabe do seu segredo. Mas é sobre ela que falam todos os dias aqueles pescadores velhos, que a conheceram menina, os longos cabelos cor-de-figo presos em laços encardidos.
- E o homem?
– Nem quis saber. Ordenou-se lá em São Miguel. Precisou mudar de cidade.
Tamanha fora a paixão da aleijadinha pelo futuro padre Bento. Por ele, dizem também as prostitutas e viúvas pobres, Vitorina passou anos sonhando. Sentava na calçada (algum dia estivera de pé?), tentando sentir a brisa que vinha do mar, o mar que naquele tempo ficava mais longe, uma dificuldade para descarregar o pescado e transportá-lo em lombo de jumento até a cidade.
– O padre só voltou morto.
– Aí, já viu… Foi enterrado bem ali, na igreja. Ela fica indo ver o túmulo assim! Deviam proibir…
– Não tem sossego o coitado. E tão virtuoso…
Vitorina passa, não escuta nada, que vai estremecida de desejos (esse, sim, conseguem andar ligeiro, mesmo se envelhecidos). E outra vez a impressão (não estará delirando?): o mar vem correndo, avançando, próximo. Não, não será sonho. Os pescadores já perceberam. Alguns estão prontos para fugir a qualquer hora, basta ouvirem o rugido das ondas crispadas de espuma.
Ninguém consegue deter esse mar. É por isso que, amanhã, Vitorina sairá de sua casinha no alto da favela. Vai arrastar o corpo e torto até a cripta, cemitério dos padres. Ficará encerrada, esperando, o terço enrolado no pescoço. Ninguém vai lembrar-se dela. Vitorina espera paciente pelo mar, braços abertos. Espera ver a água invadir portas e teto, quebrar gavetas e lápides. Espera morrer coberta pelas cinzas de padre Bento, juntos os dois, no fundo da igreja submersa.
Mas hoje ela ainda passa, vestido sujo de barro, mãos grossas de areia. E os vizinhos próximos resmungam, como se lhe adivinhassem os segredos:
– Essa aleijada…
– Deviam proibir.
Escrito por Rômulo Costa 

Escrito por Rômulo Costa 
Escrito por Rômulo Costa 




