Uma escritora para chamar de ídolo

14 Abril 2009

Por sorte, o livro indicado (leia obrigado) a ser lidos para a prova de literatura era “O Vendedor de Judas” da escritora cearense Técia Montenegro. No começo, não estava gostando muito da ideia, já que tinha que estudar as chatas matérias exatas que em nada me agradam. Mesmo assim, peguei o livro e li o primeiro conto até que não consegui mais parar.

O Vendedor de Judas foi lançado em 1998 pela editora UFC, porém a edição que estou lendo foi confeccionada em 2007 pelas Edições Demócrito Rocha. Tércia escreveu esse livro com apenas 22 anos e já foi muito bem premiada com a obra. Seus personagens são simples – dignos de pessoas que vivem em cidades do interior, descritos tão bem pela autora, mesmo sem ter nunca morado em uma. – e complexos – como é natural da condição humana. Os contos sempre envolvem assuntos como fé ingênua, obsessão amorosa, dor e solidão. Há quem compare seus textos com os de Moreira Campos por conter sem suas linhas sempre algo trágico.

Dentre os melhores contos do livro um se destada. “Vitorina”, história de uma aleijada que se apaixonou por um padre. Eu sei que nada se compara em pegar o livro e ler o conto, mas mesmo assim coloquei o texto para vocês:

Vitorina

Tércia Montenegro

               Todas as manhãs, ela desce a curta ladeira onde se amontoam mais de vinte barracos. Os vizinhos mais próximos saem às portas e janelas para vê-la passar. É pouco o caminho a ser vencido, mas Vitorina gasta nisso dois quartos de hora, parando em cada sombra, pernas imóveis cruzadas junto à cintura.
              – Essa aleijada! – e os homens riem, coçando as barrigas nuas. Sentem o vento fraco nos cabelos. As mulheres, carregando cestos de roupa molhada, também esperam para comentar:
              – Mas vá, deixa a alma do homem em paz!
              - Nem morto ele descansa.

              Vitorina não para. Todos os dias traz o vestido sujo de barro, as mãos grossas de andas na areia. Calça uns sapatinhos de pano, embora os pés nunca lhe tenham tocado o chão. Vai à igreja, terço enrolado no pescoço, reza pouco, uns murmúrios só, e logo se arrasta por detrás da sacristia. Penetra na cripta escura, antigo cemitério dos padres. Pensa que ninguém sabe do seu segredo. Mas é sobre ela que falam todos os dias aqueles pescadores velhos, que a conheceram menina, os longos cabelos cor-de-figo presos em laços encardidos.
              - E o homem?
              – Nem quis saber. Ordenou-se lá em São Miguel. Precisou mudar de cidade.

              Tamanha fora a paixão da aleijadinha pelo futuro padre Bento. Por ele, dizem também as prostitutas e viúvas pobres, Vitorina passou anos sonhando. Sentava na calçada (algum dia estivera de pé?), tentando sentir a brisa que vinha do mar, o mar que naquele tempo ficava mais longe, uma dificuldade para descarregar o pescado e transportá-lo em lombo de jumento até a cidade.
              – O padre só voltou morto.
              – Aí, já viu… Foi enterrado bem ali, na igreja. Ela fica indo ver o túmulo assim! Deviam proibir…
             – Não tem sossego o coitado. E tão virtuoso…

            Vitorina passa, não escuta nada, que vai estremecida de desejos (esse, sim, conseguem andar ligeiro, mesmo se envelhecidos). E outra vez a impressão (não estará delirando?): o mar vem correndo, avançando, próximo. Não, não será sonho. Os pescadores já perceberam. Alguns estão prontos para fugir a qualquer hora, basta ouvirem o rugido das ondas crispadas de espuma.

            Ninguém consegue deter esse mar. É por isso que, amanhã, Vitorina sairá de sua casinha no alto da favela. Vai arrastar o corpo e torto até a cripta, cemitério dos padres. Ficará encerrada, esperando, o terço enrolado no pescoço. Ninguém vai lembrar-se dela. Vitorina espera paciente pelo mar, braços abertos. Espera ver a água invadir portas e teto, quebrar gavetas e lápides. Espera morrer coberta pelas cinzas de padre Bento, juntos os dois, no fundo da igreja submersa.

          Mas hoje ela ainda passa, vestido sujo de barro, mãos grossas de areia. E os vizinhos próximos resmungam, como se lhe adivinhassem os segredos:
          – Essa aleijada…
          – Deviam proibir.


Mil Casmurros

27 Novembro 2008

A Rede Globo lançou um dos maiores meios de interação entre a emissora e o telespectador. Também não deixa de ser uma ótima idéia de divulgação da minissérie “Capitu” que estréia dia 10 de Dezembro. Eu falo do projeto Mil Casmurros que dividiu uma das principais obras machadianas em mil trechos e colocou disponível em um site onde qualquer pessoa pode gravar-se lendo um desses pedaços. 

Diariamente novos trechos vão sendo gravados e publicados no site. Pouco a pouco esses trechos vão se transformando em uma grande leitura coletiva, onde todos podem deixar o seu jeito de falar, sua forma de ler ou de interpretar.  

Diversas pessoas já participaram do projeto. Nomes do teatro, da televisão, da música, da literatura, dos blogs e, principalmente, pessoas comuns como eu e você. Alguns vídeos com qualidade impecável de som e imagens, outros produções nítidamente caseiras transformam o site em, sobretudo, um grande parque democrático onde grandes personalidades e pessoas ditas anônimas possuem o mesmo espaço. Além de ser um meio simples, mas importante de popularização da cultura e a difusão da literatura brasileira.

APÓS: Sim, este metido blogueiro gravou seu vídeo e publicou no site. Nada comparado ao do Tony Ramos ou Cid Moreira, mas o resultado não foi dos piores! ;)


Puro quanto aquele sorriso

12 Novembro 2008

Ontem estava com vontade de devorar um bom texto. Fui no Google e procurei por Fernando Sabino. Um recheado cardápio com alguns textos do escritor mineiro apareceu no Releituras. Aleatoriamente escolhi “A Última Crônica“. A crônica é apenas sensacional.

Acho que estou virando fã do Sabino.


Fim

9 Novembro 2008

“No fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim.”

Fernando Sabino


Obra machadiana completa na rede

1 Outubro 2008

Em homenagem ao centenário da morte de Machado de Assis, o Ministério da Educação (MEC) disponibilizou em seu site a obra completa do escritor carioca. Romances, contos, poesias, crônicas, tudo digitalizado para responder à necessidade de ampliar o acesso a sua obra aos estudantes dos diferentes níveis e ao público leitor em geral. Também está previsto, além da publicação dos materiais na rede, a produção de um CD que será distribuído em escolas, faculdades de letras e bibliotecas públicas.

Eu, que não tinha lido nenhuma página de Dom Casmurro, aproveitei para começar a desvendar a história de Bentinho e Capitu.

Serviço:

Leia a obra completa de Machado de Assis clicando aqui.

 

 


Machado de Assis: Cem anos

29 Setembro 2008

Em 29 de Setembro de 1908, morria Joaquim Maria Machado de Assis, o homem que mudou a literatura brasileira e se tornou o escritor mais importante do país.

Machado de Assis não é só um grande escritor, também é um grande exemplo de ser humano. De origem pobre, nascido num morro no Rio de Janeiro, o escritor tinha tudo para não dar certo: Descendente de escravos, mulato em pleno século XVIII, perdeu a mãe ainda menino, sofria de epilepsia e era gago. Mesmo com todos esses percausos que a vida preparou, ele conseguiu se tornar o maior nome da literatura brasileira sem ter freqüentado um dia sequer alguma escola. Dono de um domínio da língua portuguesa inacreditável e de uma literatura sublime, foi fundador-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) que até hoje reúne os principais nomes da literatura deste país. 

O exemplo de vida, o autodidata, o mestre Machado de Assis morreu aos 65 anos de idade e deixou um enígma que há anos intriga os brasileiros: Capitu traiu ou não Bentinho, personagens do livro Dom Casmurro?


Amigos

23 Setembro 2008

“Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…”

O poema acima é do grande Mário Quintana, com a ilustração do Ceó Pontual. Achei genial o texto e lembrei de muitas histórias. Quem não já passou por um telefone sem fio como esse, hein? Vamos seguir o conselho de Quintana!


Eu, Etiqueta

5 Setembro 2008

Vasculhando os meu arquivos aqui no computador, achei um texto escrito pelo glorioso Carlos Drummond de Andrade interpretado pelo ator Paulo Autran. O áudio faz parte do programa Quadrante que era transmitido, todos os dias, na rádio BandNews FM.

Clique aqui, ouça Eu, etiqueta e questione-se.

Se gostarem posso publicar mais textos.


Vinícius de Moraes

4 Agosto 2008

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”

Vinícius de Moraes

Não sei o motivo, mas hoje voltei do colégio com vontade de falar dele. Vinícius de Moraes (1913 – 1980) foi diplomata, jornalista, poeta e compositor carioca, tem uma obra grande espalhada pela literatura, música, teatro e cinema. Assina obras como “Eu Sei Que Vou Te Amar”, “Canto de Ossanha”, “Gente Humilde” entre outros. Fez parceria com Tom Jobim, Toquinho e Chico Buarque. Casou-se nove vezes!

Um dia, conversando com uma amiga começamos a falar de Vinícius e ela disse que ele é o único homem que pode chamar uma mulher de cadela e não ser ofensivo. Achei estranho, pensei que não era verdade até ver o seguinte soneto:

SONETO DA DEVOÇÃO

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! ? uma cadela
talvez,
 mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!


Mário Quintana

30 Julho 2008

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.”

Mário Quintana

 Mário de Miranda Quintana nasceu em Alegrete (RS) no dia 30 de Julho de 1906, foi poeta, tradutor e jornalista brasileiro. Trabalhou em vários jornais gaúchos, traduziu autores de importância e, em 1940, publicou seu primeiro livro de poesias, Rua dos Cataventos. Morreu em 1994, se estivesse vivo, completaria hoje 102 anos.

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Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

Mário Quintana